RIO DE JANEIRO, BRASIL. 04 DE ABRIL A 05 DE JULHO DE 1832

Local 10

A riqueza da floresta tropical e a sociedade brasileira

No mais glorioso estilo o pequeno Beagle entrou na Baía de Guanabara, repleta de navios de todas nações, ancorando no porto do Rio de Janeiro, em 5 de abril de 1832. Na véspera, ao se aproximar da cidade, Darwin ficou fascinado com a paisagem ao contemplar as montanhas escarpadas, sua vegetação e a forma leve das palmeiras. Além das novidades do local, havia o êxtase de abrir as cartas!

Chegada ao Rio de Janeiro (Parte 1)
Narração do Rafael Tavares
Chegada ao Rio de Janeiro (Parte 2)
Narração do Rafael Tavares

Sua primeira impressão do Rio ao desembarcar foi de que era uma cidade de aparência alegre e populosa. Porém, a burocracia da autorização para sua expedição ao interior da cidade, e a má educação do povo o deixaram irritado.

Chegada ao Rio de Janeiro (Parte 3)
Narração do Rafael Tavares

Aqui permaneceu por três meses, enquanto FitzRoy retornava com o Beagle à Bahia para refazer algumas medições de longitude. Para aproveitar melhor a estada, Charles alugou uma casa em Botafogo. Ele passeou bastante pela cidade, visitou muitas pessoas e lugares. Conheceu o Palácio de São Cristóvão, residência oficial do Imperador, que considerou, surpreendentemente, bem elegante e o Jardim Botânico, que estava começando na época. Admirou a paisagem e explorou os arredores, indo várias vezes ao Corcovado, Pão de Açúcar, Tijuca e à Lagoa Rodrigo de Freitas.

Em suas expedições para o interior, partiu de Niterói, viu a fascinante vista de suas montanhas, passou pela Serra da Tiririca por Itaocaia e as restingas e lagoas de Maricá, Mandetiba, por São Pedro da Aldeia, Campos Novos, Barra do São João, cruzou o rio Macaé e foi até a fazenda Sossego. No retorno passou por Rio Combratá, Rio Bonito e Itaboraí. Retornando ao Rio, criticou a precariedade das estradas e pontes nas principais vias do Brasil.

O Projeto “Caminhos de Darwin da UFRJ” e o tataraneto de Darwin no Rio de Janeiro
Entrevista com prof. Ildeu Moreira

Ao viajar pelo interior e conviver com os habitantes da cidade, Darwin observou seus hábitos e comportamentos. A falta de educação da população em geral e o desprezo pelos negros, manifestado até pelos “homens bons”, o incomodaram imensamente. A impunidade dos ricos e a corrupção impregnada na cultura lhe deixaram indignado. A questão levantada na Bahia mantinha-se presente: que futuro teria um país onde seus habitantes têm comportamentos tão desprezíveis?

A visão de um inglês num momento histórico conturbado
Entrevista com prof. Ildeu Moreira

Entretanto, sem sombra de dúvida, foram suas caminhadas pela floresta tropical, que deixaram a melhor impressão. Florestas, muitas vezes tão densas, que era quase impossível locomover-se fora das trilhas. Sabendo que dificilmente teria outra oportunidade como essa, procurou visitá-la várias vezes para coletar e apreciar sua riqueza e diversidade. Uma hora de coleta era suficiente para lhe manter atarefado durante muito tempo. Darwin ficou surpreso ao perceber que quanto mais visitava a floresta maior era seu prazer, e não ao contrário, como era de se esperar. Esta estada possibilitou a Darwin um amadurecimento como naturalista.

O impacto da natureza tropical brasileira na motivação de Darwin
Entrevista com prof. Ildeu Moreira

Escrito no período

Darwin não teve uma boa impressão da população do Brasil desta época e escreveu nos seus primeiros dias no Rio de Janeiro:

O dia de hoje foi desperdiçado para a obtenção dos documentos necessários para autorizar minha expedição rumo ao interior do país. Submeter-se à insolência dos burocratas nunca é agradável, mas no caso dos brasileiros, cuja mente é tão desprezível quanto o povo é miserável, a tarefa é praticamente intolerável. Qualquer naturalista é capaz de lamber a sola do sapato de um brasileiro diante da perspectiva de ver florestas selvagens povoadas por belos pássaros, macacos e preguiças e lagos com capivaras e jacarés.

No dia 25 de abril de 1832, Darwin quase perdeu todos seus pertences durante o desembarque na praia de Botafogo. No dia seguinte enviou o seu diário para sua irmã Carolina. Veja como foi:

Trouxe todas as minhas coisas do Beagle para Botafogo. Ao desembarcar na praia, tive um dissabor em pequena escala, o suficiente, porém, para figurar alguns dos horrores de um naufrágio. Duas ou três grandes ondas inundaram o barco: para meu terror, vi boiando diante de mim meus livros, instrumentos, coldres e tudo o que me era mais útil. Nada se perdeu ou foi completamente deteriorado, mas a maior parte dos itens foi danificada.

Corcovado: No dia 30 de maio de 1832 Darwin estimou sua altitude em 2.225 pés acima do nível, que hoje é medida em 2.330 pés Bibl. 5 (Darwin, 2008 p. 87). No dia 27, escreveu:

... fomos juntos subir o Corcovado. A trilha, pelas primeiras milhas, é o aqueduto: a água sobe pelo sopé do morro e é conduzida por uma escarpa íngreme até a cidade. A cada canto apresentaram-se-nos vistas diferentes e lindíssimas. Por fim começamos a subir os altos degraus que, por toda parte, estão cobertos por espessa floresta. Os cursos d'água estavam ornamentados pela mais elegante das formas de vegetação: a samambaia. Não eram de tamanho muito grande, mas, no brilho da leveza verde de sua folhagem e na linda curva com que caíam, eram de uma beleza clássica e admirável. Logo chegamos ao pico e contemplamos esta vista que, talvez com a exceção das da Europa, é a mais decantada do mundo. Se classificamos as paisagens de acordo com o espanto que produzem, esta, com toda a certeza, ocupa o lugar mais alto, mas se, como é mais verdadeiro, o fazemos de acordo com o efeito pictórico, ela perde por muito para várias outras nas vizinhanças. Todos já comentaram que uma paisagem vista de uma eminência perde muito de sua beleza e, conquanto aqui estejam muito presentes os dois elementos {o que talvez cause menos dano por essa razão, no que se refere a um trecho de terra com florestas e de mar aberto) mesmo assim se sustenta a observação. O Corcovado tem cerca de 2.000 pés de altura; um de seus lados, por quase 1.000 pés, é tão íngreme que poderia ser sondado verticalmente. A seu pé fica uma grande mata; nada me agradou tanto quanto a linda aparência que ela exibiu quando vista de um ponto tão próximo da vertical. Isso faria supor que a vista de um balão seria extremamente impressionante.

Darwin relatou no dia 30 de maio de 1832:

Novamente subi com Derbyshire o Corcovado e levei comigo o barômetro de altitude. Estimo sua altitude em 2.225 pés acima do nível do mar. Durante o tempo em que estivemos no pico estávamos ou dentro de uma nuvem ou sob chuva...

Pão de Açúcar: No dia 23 de maio de 1832 Darwin escreveu:

Coletei diversos animais na planície arenosa que contorna o mar atrás do Pão-de-açúcar. O solo aqui, limpo de cactos e de arbustos, está plantado com muitos acres de abacaxi. São cultivados em fileiras retas e separados por considerável distância. Assim, esse fruto, tratado com tanto cuidado na Inglaterra, ocupa aqui terra que, para todos os demais propósitos, é de todo estéril e improdutiva. O número de laranjas que dão as árvores nos pomares daqui é atordoante. Vi uma hoje onde tenho certeza de que havia, caída no chão, carga suficiente para vários carros, junto da qual os ramos quase se partiam com o fardo dos frutos remanescentes.

Você sabia?

  • Que Darwin ficou extremamente incomodado com o comportamento dos brasileiros? Ele presenciou várias situações que o revoltaram a ponto de dizer que eles possuíam pouca “quantia daquilo que dão dignidade à humanidade”.
  • Que Darwin considerava o ânimo e a alegria pontos fundamentais da personalidade dos escravos? Ele acreditava que a maioria era mais feliz do que se esperava. Tinham uma boa natureza, eram esperançosos e perseverantes.
  • Que os escravos eram obrigados a se comunicar, entre si, em português? O objetivo era dificultar sua comunicação para mantê-los desunidos.
  • Que era possível identificar as tribos de origem dos escravos? Elas podiam ser reconhecidas através dos adereços entalhados na pele e pelas diversas expressões.
  • Que já naquela época se brincava de 1o de abril? A bordo do Beagle, o tenente Sullivan gritou ”Darwin você já viu uma orca? Venha aqui dar uma olhada!” Darwin saiu correndo, entusiasmado com a novidade e foi recebido com uma tremenda gargalhada da tripulação.
  • Que Augustus Earl, primeiro oficial artista do navio, foi um dos guias de Darwin no Rio de Janeiro? Ele já havia permanecido algum tempo no Rio em 1820. Juntou-se à expedição em outubro de 1831, e teve que deixá-la em agosto de 1832, em Montevideo, por conta de sua saúde frágil. Foi substituído pelo inglês Conrad Martens.
  • Que por diversas vezes, Darwin ao visitar o Corcovado registrou a chuva orográfica.
Vivendo o Tempo Atmosférico – Rio de Janeiro
Chuva orográfica
Vivendo o Tempo Atmosférico – Rio de Janeiro
Chuvas torrenciais
  • Que D. Pedro II tinha apenas 6 anos quando Darwin chegou ao Rio de Janeiro? Completara 1 ano que D. Pedro I havia abdicado do trono em seu favor e retornado a Portugal para lutar pelo trono de D. Maria.
  • Que em Julho de 1832, quando Darwin deixava o Rio de Janeiro, D. Pedro II invadia Portugal com seu exército? O conflito envolveu toda península ibérica, trava-se também de uma disputa entre os defensores do liberalismo versus o absolutismo.

Para saber mais...

A esquina do mundo
Entrevista Almirante Bittencourt

Para saber mais detalhes da passagem de Darwin pelo Rio de Janeiro, visite o projeto Caminhos de Darwin da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Os grandes tesouros
Entrevista Almirante Bittencourt

Galeria