Estreito de Magalhães e costa Leste da Terra do Fogo. 26 de janeiro a 21 de fevereiro de 1834

Local 26

Navegando pelo Estreito de Magalhães!

Velejando com vento a favor, depois de passar pelas falésias brancas do Cabo Virgenes, dia 26 de janeiro de 1834, o Beagle entrou no Estreito de Magalhães, que leva esse nome em homenagem ao navegante português Fernão de Magalhães, que o incluiu nas cartas náuticas em 21 de outubro de 1520.

Em 29 de janeiro, ancoraram na Baía de San Gregório, na costa norte, onde encontraram uma grande tribo de fueguinos – os Toldos – que fizeram uma recepção muito gentil. Como se comunicavam frequentemente com caçadores de focas, eles falavam bem o espanhol e um pouco de inglês. Vestiam grandes mantos de pele de guanacos e tinham longos cabelos soltos. Pintavam-se mais do que os índios que lutavam com general Rosas.

No dia seguinte ancoraram na Ilha Elizabeth, onde Darwin coletou algumas orquídea e uma flor, - desenhada por Conrad Martens – que, mais tarde, veio a se chamar Calceolaria darwinii. A região era uma mistura da Patagônia e da Terra do Fogo, com plantas de ambas regiões. Como não acharam água potável nas redondezas, decidiram descer o estreito até Puerto Hambre, onde finalmente encontraram água. O monte Sarmiento, uma montanha com aproximadamente 2.000 metros da altura era visível do Beagle, mesmo a 144 Km de distância.

Após vários dias de chuvas torrenciais pelas manhãs, somente em 6 de fevereiro, Charles escalou o Monte Tarn, ponto mais alto da região, com 792 m de altitude. Depois de uma difícil subida devido ao terreno encharcado, Darwin alcançou o topo e pôde deslumbrar-se com a belíssima paisagem da Terra do Fogo. Do alto, observou as cadeias irregulares de colinas cobertas de neve, os fundos dos vales com tons verde-amarelados e os braços de mar seguindo em todas as direções. Com céu aberto, no dia seguinte, mais uma vez avistaram o Monte Sarmiento com sua extensão coberta pela neve. Foi um momento memorável!

Em 20 de janeiro o Adventure seguiu para as ilhas Malvinas e o Beagle ancorou sob o cabo Watchman. No dia 23 ao meio dia, após fazerem observações de latitude, içaram as velas a caminho do Estreito de Magalhães.

Escrito no período

Charles Darwin encontrou com fueguinos Shelk’man ou Ona, no final de janeiro e início de fevereiro de 1834. Descreveu o encontro no dia 29 de janeiro de 1834.

Em terra havia os Toldos de uma grande tribo de índios patagões. Desembarquei com o capitão e encontrei uma recepção muito gentil. Estes índios se comunicam tão constantemente com os caçadores de focas que são semicivilizados: falam bastante espanhol e um pouco de inglês. Sua aparência, no entanto, é bastante agreste. Cobrem-se todos com largos mantos de guanaco e seus cabelos longos correm soltos por seu rosto. Assemelham-se, por seu porte, aos índios que estavam com Rosas, mas são muito mais pintados; muitos com o rosto inteiro vermelho, afunilado no queixo; outros trazem-no negro. Um homem estava coberto de anéis e pontos brancos como um fueguino. A altura média parece ser de mais de seis pés. Os cavalos que levavam esses homenzarrões eram pequenos e mal serviam a seu trabalho.

Quando voltamos ao bote, um grande número de índios entrou nele. Liberar o bote foi uma operação muito tediosa e difícil. O capitão prometeu levar três a bordo e todos pareciam determinados a ser um deles. Finalmente chegamos ao navio com nossos três convidados. Durante o chá eles se comportaram de forma muito polida, usaram garfo e faca e se serviram com uma colher. De nada gostaram tanto quanto do açúcar. Sentiram o movimento do barco e, por isso, foram desembarcados.

Sobre o encontro dos dias 12 e 13 de fevereiro de 1834, no retorno para o Atlântico, Charles relatou:

Durante o dia, passamos perto da ilha Elizabeth, em cujo extremo Norte havia um grupo de fueguinos com suas canoas. Eram homens altos e vestidos com mantas; pertencem provavelmente à costa Leste; o mesmo grupo que vimos na baía Bom Sucesso. São claramente diferentes dos fueguinos e deveriam ser chamados de patagões pedestres. Jemmy Button tinha grande horror desses homens, que chama de “gente de Ohens”. “Quando a folha, está vermelha, ele dizia, os Ohens vêm por cima da montanha e lutam muito”.

De manhã cedo fizemos uma visita aos índios com esperança de conseguirmos obter carne de guanaco. Foram, como sempre, muito educados. Há agora entre eles, casado, um nativo de Montevidéu (de nascimento, devo supor, com dois terços de sangue indígena) que está há quatro anos com eles. Ele nos diz que permanecerão aqui durante todo o inverno e que então seguirão as Cordilleras, buscando ovos de avestruz [emas], mas que a carne de guanaco nunca lhes falta nesta região. O capitão pensa explorar o rio Santa Cruz, e este homem nos deu boas notícias, i. e.: de que ali há muito poucos índios e que o rio é tão fundo que os cavalos não conseguem passar a vau em ponto algum. No rio Chupat [Chubut], muito mais ao Norte, há muitíssimos índios, inimigos desta tribo. Mas disse que todos os índios meridionais, 900 ao todo, são amigos. Exatamente neste momento havia dois índios navegantes fazendo uma visita aos patagões (os homens que chamei de patagões pedestres); eles não falam a mesma língua, mas um dos membros desta tribo aprendeu o dialeto deles. Esses índios parecem ter facilidade em aprender línguas: a maioria deles fala um pouco de espanhol e de inglês, o que há de contribuir grandemente com seu processo civilizatório ou de imoralização, já que esses dois passos parecem andar de mãos dadas.

Ao comentar a semana que fizeram o mapeamento da costa Leste da Terra do Fogo, Darwin escreveu sobre os fueguinos Onas.

... depois de um clima muito favorável, ancorados na baía Thetis, entre os cabos St Vincent e Diego. Ao desembarcarmos, encontramos um grupo de fueguinos, ou de patagões pedestres, belos homens altos com mantas de guanaco. A tenda estava também coberta com a pele do mesmo animal. É um absoluto enigma, para todos, saber como esses homens, com nada além de suas flechas exíguas, conseguem matar animais tão fortes e ariscos.

Você sabia?

  • Que Darwin teve muita dificuldade em atingir o topo do Monte Tarn? Na caminhada até o topo deste monte, o terreno permanecia tão úmido que a vegetação era apodrecida.
  • Que no topo do Monte Tarn, o vento era tão gélido que, mesmo em condições de céu claro, Darwin não conseguiu permanecer ali por muito tempo? Este fato é explicado pela presença de uma massa de ar fria que atuava sobre esta região, associada a topografia.
  • Que durante o mapeamento da costa leste da Terra do Fogo, a tripulação do Beagle ficou maravilhada com a presença de inúmeras baleias cachalotes no Cabo San Sebastian?

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