Santiago e Mendoza, Chile / Argentina. 15 de março a 17 de abril de 1835

Local 32

Os Andes se elevaram do mar!

Em março de 1835, Charles realizou uma grande expedição terrestre, indo de Santiago (Chile) até Mendoza (Argentina) montado em uma mula. Na ocasião, vislumbrou diversas paisagens distintas e observou a cadeia montanhosa dos Andes, vales com pequenos rios e os campos nos pampas, anotando sobre a geologia, mudanças no relevo, altitude, clima e vegetação, bem como as ruínas de construções e artefactos indígenas da região.

Charles encontrou conchas fossilizadas nas montanhas e ficou intrigado. Assim, começou a se questionar se aquele terreno não havia sido o fundo do mar em épocas pretéritas e se elevado por alguma razão.

Escrito no período

No dia 18 de março de 1835, ao passar a fronteira entre Chile e Argentina, Darwin mencionou em seu diário.

Os funcionários foram muito educados, em parte graças ao fato de eu carregar um passaporte poderoso emitido pelo presidente do Chile. Mas devo expressar minha admiração pela polidez de todo e qualquer chileno. Nesse caso, o contraste é forte com a mesma classe de funcionários na Inglaterra. Posso mencionar uma anedota que na época me chamou a atenção: encontramos em Mendoza uma negra pobre, gorda e muito pequena, com um bócio tão grande que nossos olhos quase involuntariamente nele se fixavam surpresos; mas percebi que meus dois acompanhantes, depois de olharem por um breve momento, tiraram seus chapéus em um pedido de desculpas. Quando um membro das classes mais baixas da Europa mostraria este tipo de recatada polidez para com um pobre e desgraçado objeto de uma raça degradada?

No dia 18 de março de 1835, Darwin escreveu sobre o rio Maypo.

O vale é muito estreito e consiste de um planalto de pedrisco, em geral elevado de alguns pés acima do Rio. O Maypo é mais uma grande torrente de montanha do que um rio: a queda é muito grande e a água tem a cor da lama; o estrondo é muito similar ao do mar, pois ele corre entre grandes fragmentos arredondados. Sobre este fundo, o ruído das pedras batendo umas nas outras é audível de forma muito distinta. As montanhas dos dois lados têm, imagino, de três a cinco mil pés de altura; suas faces são muito inclinadas e nuas, de cor geralmente arroxeada e com pedras de uma estratificação muito impressionante; mas as formas não são selvagens. Se o cenário não é muito bonito, é ao menos impressionante e grandioso.

No dia 20 de março de 1835, Charles descreveu suas impressões sobre o cenário dos Andes.

As partes que me impressionaram, no contraste com as poucas outras cadeias de montanhas que já vi, são: a regularidade do terreno plano dos vales, uma planície estreita composta de pedrisco através da qual o rio corta um canal. Razões geológicas nos induzem a acreditar que este pedrisco foi depositado pelo oceano quando ele ocupava essas ravinas, e que a tarefa dos rios é unicamente de remover tal detrito. Se isto for o caso, a elevação dos Andes, sendo posterior à da maioria das outras montanhas, explica o dato de estas franjas ainda permanecerem ligadas aos vales. Além disso, as cores brilhantes, principalmente vermelho e roxo, das montanhas completamente nuas e íngremes; os grandes e contínuos diques assemelhados a muros; a estratificação nítida que, onde é quase vertical, provoca os mais loucos e pitorescos grupos de picos e, onde é pouco inclinada, gera as massivas montanhas contínuas; estas últimas ocupam os limites das Cordilleras, enquanto as outras ocupam as partes mais centrais e elevadas. E, por fim, as vastas pilhas de detrito fino e geralmente de cores vivas. Esse detrito cai dos flancos das montanhas em um ângulo agudo no fundo do vale. Essas ilhas cônicas lisas e maciças devem com frequência ter uma elevação de dois mil pés. Com frequência percebi que onde a neve se estende pelo chão as pedras parecem sempre a ponto de desmoronar; e, nas Cordilleras, nunca cai chuva. Daí a quantidade de rocha degradada. Ocasionalmente acontece que na primavera certa quantidade de tal detrito caia sobre a neve que se acumulou na base das montanhas e, assim, forme durante muitos anos uma casa de gelo natural; passamos sobre uma dessas: a elevação fica muito abaixo da linha do gelo perpétua. Durante o dia, em uma parte muito deserta e exposta do Valle, passamos pelos restos de algumas casas indígenas: terei ocasião de mencionar este assunto novamente.

No dia 21, ao chegar no pico e olhar para trás, Darwin se emocionou.

A atmosfera tão esplendorosamente clara, o céu de um azul intenso, os vales profundos, as formas agudas escapadas, os montes de ruínas empilhados durante o correr das eras, as rochas de cores brilhantes contrastavam com as quietas montanhas de neve e, juntas, produziam uma cena que eu jamais poderia ter imaginado. Nem aves nem plantas, a não ser por uns poucos condores rodando em torno dos pináculos mais elevados, desviavam a atenção da massa inanimada. Eu me senti feliz por estar sozinho: era como observar uma tempestade ou ouvir a orquestra plena em um coro do Messias.

Na noite de 22 de março de 1835, Charles descreveu:

O brilho aumentado da lua e das estrelas a esta atitude é muito impressionante e se deve claramente à grande transparência do ar. Todos os viajantes comentaram sobre a dificuldade de se julgar altitudes e distâncias em distritos montanhosos, e geralmente eles a atribuem à falta de objetos de comparação. Parece-me que ela se deve tanto a isso quanto à extrema transparência, que confunde distâncias diferentes; e parcialmente, também, ao inaudito grau de fadiga provinda de um pequeno esforço, e que opõe ao hábito a evidência dos sentidos.

Você sabia?

  • Que nas festividades do Natal, a tripulação do Beagle realizou várias competições e um jogo naval conhecido como Pendurando o Macaco”? Originalmente, era um barril de rum suspenso em um tripé, mas neste dia, o barril foi substituído por um marinheiro pendurado pelos tornozelos. Essa brincadeira foi retratada por Conrad Martins.
  • Que o guanaco é um camelídeo nativo da América do Sul? Esse animal era abundante nas planícies áridas da Terra do Fogo e Darwin o descreveu em suas Notas de Zoologia.
  • Que Conrad Martins caçou uma pequena ema em Puerto Deseado, que serviu de alimento para os marinheiros. Contudo, parte do animal foi preservada e empalhada, e atualmente encontra-se exposta na Sociedade de Zoologia em Londres?

Galeria