Salvador e Recife, Brasil. 01 a 21 de agosto de 1836

Local 39

A última visita ao Brasil

Por conta dos ventos, o HMS Beagle foi obrigado a passar pelo Brasil mais uma vez, ao invés de rumar direto para a Inglaterra. Em agosto de 1836 ancorou na Baia de Todos os Santos, na Bahia. A cidade de Salvador não causou a mesma impressão que da primeira vez. Mas, Darwin ficou feliz ao perceber que a natureza tropical continuava lhe proporcionando um imenso prazer. Aproveitou para fazer longas caminhadas, parando várias vezes a fim de registrar em sua mente a exuberância da floresta tropical.

Partiram no dia 6 e como o tempo atmosférico se manteve desfavorável, mais uma vez mudaram a rota e, no dia 12 do mesmo mês, se aproximaram de Pernambuco. A estação de fortes chuvas havia recém acabado e Recife estava alagada e difícil de transitar. Darwin não teve uma boa impressão das pessoas e da cidade, mas os recifes que formavam um porto lhe chamaram bastante atenção. No dia 17, ao subir a bordo do Beagle, não escondeu sua felicidade em deixar a costa do Brasil rumo a Inglaterra.

Escrito no período

No final da viagem, cansado e ansioso para voltar para a Inglaterra, Charles foi bem critico ao escrever sobre a cidade e o povo de Recife.

Ancoramos fora, mas em pouco tempo um piloto veio a bordo e nos dirigimos a Pernambuco [Recife] se ergue sobre estreitos, baixos bancos de areia, que ficam separados uns dos outros por estreitos canais de água salgada. As três partes da cidade são ligadas por duas longas pontes, construídas sobre colunas de madeira. A cidade, por toda parte, é nojenta; as ruas são estreitas, mal pavimentadas, imundas; as casas, muito altas e sombrias. A quantidade de brancos que se pode encontrar nas ruas durante a manhã parece ser proporcional à de estrangeiros em outras nações; todo o restante é negro ou de uma cor pardacenta. Estes últimos, assim como os brasileiros, estão longe de ter aparências atraentes: os pobres dos negros, onde quer que estejam, são animados, falantes e ruidosos. Nada havia na paisagem, no aroma ou nos sons dessa grande cidade que me fornecesse quaisquer impressões agradáveis. A estação das chuvas pesadas mal tinha acabado e, por causa disso, a terra circunstante, que quase não está acima do nível do mar, estava alagada. Fracassei em todas minhas tentativas de fazer longas caminhadas. Consegui, no entanto, observar que muitas das casas de campo em torno da cidade eram como as da Bahia, de uma aparência alegre que harmonizava bem com a personalidade exuberante da vegetação tropical.

A terra plana alagadiça é cercada, a uma distância de algumas milhas, por um semicírculo de morros baixos, ou, mais que isso, pela borda de uma paisagem elevada de talvez duzentos pés acima do nível do mar. A velha cidade de Olinda se ergue sobre uma extremidade dessa cadeia. Um dia levei uma canoa e subi um dos canais para visitá-la. Achei a velha cidade, graças a sua localização, simultaneamente mais doce e mais limpa que a de Pernambuco [Recife]. Devo celebrar, por ser esta a primeira vez durante os quatro anos e meio em que estivemos vagueando, o fato que encontrei falta de educação entre qualquer classe de pessoas; fui recusado de forma ríspida em duas casas diferentes e consegui com dificuldade, em uma terceira, a permissão de atravessar seus jardins para atingir um morro não cultivado com o propósito de conseguir uma boa vista da região. Sinto-me muito feliz de que isso tenha acontecido na terra da "Brava Gente", pois não lhes tenho qualquer boa-vontade. Um espanhol teria ficado envergonhado diante da mera ideia de recusar um tal pedido, ou de se portar rudemente para com qualquer pessoa.

Dia 25 de setembro, considerando o fim de sua viagem no HMS Beagle, Charles Darwin fez o que chamou de "uma pequena retrospectiva das vantagens e desvantagens, dores e prazeres, de nossos cinco anos de errância" em seu diário.

Se alguém viesse pedir meu conselho antes de embarcar em uma longa viagem, minha resposta dependeria de ele ter um gosto claro por algum ramo do conhecimento, que pudesse dessa forma ser adquirido. Não há dúvida de que é uma grande satisfação contemplar diversas terras e as muitas raças da humanidade, mas os prazeres ganhos no momento não contrabalançam os males. É necessário olhar adiante, para uma colheita, por mais que possa estar distante, em que surgirão os frutos: algo de bom terá sido realizado. Muitas das perdas que devem ser vivenciadas são óbvias, como a companhia de todos os velhos amigos e a vista dos lugares aos quais está ligada cada uma de nossas lembranças mais caras. Essas perdas, no entanto, são naquele momento parcialmente aliviadas pelo infindo deleite da expectativa pelo desejado dia da volta. Se, como dizem os poetas, a vida é um sonho, estou seguro de que em uma longa viagem essas são as visões que melhor afastam a longa noite. Outras perdas, embora não sejam sentidas a princípio, depois de um certo período pesam muito. Essas são a falta de espaço, de privacidade, de repouso (a desgastante sensação de uma pressa constante) a privação de pequenos confortos, os luxos da civilização, da companhia doméstica e, finalmente, da música e de outros prazeres da imaginação. Quando tais insignificâncias são mencionadas, fica evidente que as dores verdadeiras da vida marinha (a não ser por acidentes) chegaram ao fim.

O curto espaço de tempo de sessenta anos fez uma diferença impressionante na facilidade das navegações de grande distância. Mesmo na época de Cook, um homem que deixava sua confortável lareira para tais expedições passava por privações: um iate com todos os luxos da vida pode agora dar a volta ao mundo. Além da vasta melhoria dos navios e dos recursos navais, toda a costa oriental da América está agora aberta e a Austrália tornou- se uma metrópole de um continente em ascensão. Como são diferentes as circunstâncias para um homem naufragado no dia de hoje no Pacífico em relação ao que teriam sido no tempo de Cook. Desde sua viagem, todo um hemisfério foi acrescentado ao mundo civilizado.

Se a pessoa sofre muito com os enjoos, deve levá-los consideravelmente em conta. Falo por experiência própria: não se trata de uma mazela insignificante que se cura em uma semana. Se lhe agradam as táticas navais, a viagem terá tudo para agradar. Mas mesmo a maior parte dos marinheiros, parece-me, tem pouca estima real pelo mar em si mesmo. Deve-se considerar a grande proporção de tempo que, durante uma longa viagem, é gasta na água em comparação aos dias nos portos.

E quais são as decantadas glórias do oceano sem limites? Uma nulidade tediosa, um deserto de água como dizem os árabes. Não há dúvida de que há cenas maravilhosas: uma noite de luar com céu claro, o escuro mar cintilante, as brancas velas enfunadas pelo ar suave de um leve vento feito, uma calmaria morta, a superfície pulsante polida como um espelho, e tudo muito imóvel, exceto o ocasional bater das velas. É bom contemplar uma vez uma ventania, com seu arco ascendente e sua fúria móvel, ou a pesada borrasca com ondas montanhosas. Confesso no entanto que minha imaginação tinha pintado algo mais grandioso, mais aterrador em uma tempestade em seu ápice. Trata-se de uma visão mais interessante nas telas de Vandervelde, e infinitamente mais interessante quando contemplada da praia, quando as árvores acenando, o voo louco das aves, as sombras escuras e as luzes brilhantes, as torrentes precipitantes, tudo proclama a batalha dos elementos enfurecidos. No mar, o albatroz e a procelária voam como se a tempestade fosse a esfera que lhes foi designada, a água sobe e afunda como se realizando sua tarefa cotidiana: apenas o navio e seus habitantes parecem ser objeto da ira. Em uma costa abandonada e gasta pelas intempéries a cena, de fato, é diferente; mas as sensações pertencem mais ao horror do que ao louco deleite.

Revisitemos agora o lado bom do tempo que passou. O prazer que se tem contemplando o cenário e o aspecto geral das diversas paisagens que visitamos decididamente foi a mais constante e mais elevada fonte de alegria. É provável que a beleza pitoresca de muitas partes da Europa exceda em muito tudo o que contemplamos. Mas há um prazer cada vez maior em comparar a personalidade do cenário de diferentes terras, o que em um certo grau é diferente de meramente admirar sua beleza, dependendo mais de uma familiaridade com as partes individuais de cada panorama. Tendo fortemente a acreditar que, como na música, a pessoa que compreende cada nota vai, se também tiver um gosto verdadeiro, apreciar melhor o todo. Assim, quem examina cada parte de uma bela vista pode também compreender plenamente o efeito total e combinado. Daí o fato de que um viajante deve ser um botânico, pois em todas as paisagens as plantas formam o principal ornamento. Conjuntos de massas de rochas nuas, mesmo em suas formas mais selvagens, por algum tempo podem proporcionar um espetáculo sublime, mas logo se tornam monótonos. Pintados de cores brilhantes e variadas, eles se tornam fantásticos. Vestidos de vegetação, eles devem formar pelo menos uma pintura decente, se não linda.

Quando disse que o cenário da Europa era provavelmente superior a qualquer coisa que tenhamos contemplado, devo abrir uma exceção, como uma categoria à parte, para as regiões intertropicais. As duas não podem ser comparadas lado a lado. Mas já discorri com frequência demasiada sobre a grandiosidade destes últimos climas. Como a força da impressão frequentemente depende de ideias preconcebidas, devo acrescentar que todas as minhas provinham das vívidas descrições da Narrativa Pessoal, que excedem em muito o mérito de qualquer coisa que li a respeito. Entretanto, com essas ideias elaboradíssimas, meus sentimentos ficaram muito longe de contemplar sequer uma nesga de decepção em meu primeiro desembarque na costa do Brasil.

Entre as cenas que estão profundamente gravadas em minha mente, nenhuma ultrapassa em sublimidade as florestas primevas, intocadas pela mão do homem, sejam as do Brasil, onde os poderes da vida são predominantes, ou as da Terra do Fogo, onde a morte e a degradação prevalecem. Ambas são templos ocupados pelas variadas produções do Deus da natureza. Ninguém pode deter-se imóvel nessas solidões sem sentir que há mais no homem que o mero alento de seu corpo.

Ao evocar as imagens do passado, percebo que as planícies da Patagônia passam diante de meus olhos com mais frequência. E no entanto essas planícies são declaradas miseráveis e inúteis por todos. Só são caracterizadas por traços negativos: sem habitações, sem água, sem árvores, sem montanhas, sustentam meramente algumas poucas plantas anãs. Por que então, e a situação não se aplica só a mim, esses áridos desertos tomam posse tão firmemente de minha memória? Por que os ainda mais planos, verdes e férteis Pampas, que prestam serviço à humanidade, não geraram uma impressão equivalente? Mal consigo analisar essas sensações. Mas isso há de se dever em parte à rédea solta concedida à imaginação. Elas são infinitas, pois são quase impraticáveis e, logo, desconhecidas; trazem o selo de ter permanecido assim por eras, e não surge limite algum para sua duração no tempo futuro. Se, como supunham os antigos, a terra chata fosse cercada por um volume de água impossível de se atravessar, ou por desertos aquecidos a um excesso intolerável, quem não olharia para essas últimas fronteiras do conhecimento do homem com sensações profundas mas mal definidas?

Finalmente, entre os cenários naturais, as vistas do alto de montanhas elevadas, embora certamente não sejam belas em um certo sentido, são muito memoráveis. Eu me lembro de olhar para baixo, de pé no topo da mais alta Cordillera; a mente, imperturbada por detalhes minúsculos, ficava preenchida pelas estupendas dimensões das massas circunstantes.

Dos objetos individuais, talvez nenhum cause espanto com tanta certeza quanto a primeira visão, em seu ambiente natural, de um verdadeiro bárbaro, do homem em seu estado mais baixo e mais selvagem. A mente percorre apressada os séculos passados e então pergunta se nossos progenitores podiam ser como ele. O homem, com sinais e expressões que nos são menos compreensíveis que os dos animais domésticos; que não possui o instinto desses animais e ainda não parece gabar-se da marcha da razão humana, ou pelo menos das artes que surgem dessa razão. Não creio que seja possível descrever ou pintar a diferença entre o homem selvagem e o civilizado. Trata-se da diferença entre um animal na natureza e um domesticado, e em parte o interesse em se contemplar os selvagens é o mesmo que levaria qualquer pessoa a desejar ver o leão em seu deserto, o tigre estraçalhando sua presa na selva, o rinoceronte nas planuras agrestes, ou o hipopótamo chafurdando na lama de algum rio africano.

Entre os outros espetáculos mais notáveis que contemplamos podem-se elencar: as estrelas do hemisfério meridional, o tornado, a moraina erguendo seu rio azul de gelo para um agressivo precipício que pende sobre o mar, um atol construído pelos minúsculos animais que formam corais, um vulcão ativo, os tremendos efeitos de um violento terremoto. Estes últimos fenômenos talvez tenham para mim um interesse mais elevado, graças a sua íntima conexão com a estrutura geológica do mundo. Um terremoto deve, no entanto, ser um evento muito impressionante para qualquer um: a terra sólida, considerada desde nossa mais tenra infância como o próprio exemplo de solidez, oscilou como uma fina crosta sob nossos pés; e ao vermos as mais lindas e custosas obras do homem derrubadas em um momento, sentimos a insignificância dos poderes de que ele se vangloria.

Já foi dito que o amor pela caça é um prazer inerente ao homem: um vestígio de uma paixão instintiva. Se tanto, temos certeza de que o prazer de viver a céu aberto, com as estrelas como teto e o solo como mesa, é parte da mesma sensação. É o selvagem voltando a seus hábitos rudes e naturais. Sempre rememoro nossos cruzeiros nos botes e minhas jornadas por terra, quando estávamos em regiões pouco frequentadas, com uma espécie de extremo deleite que cena alguma da civilização poderia criar. Não tenho dúvida de que qualquer viajante deve recordar a intensa sensação de felicidade advinda da mera consciência de se respirar em um clima estrangeiro em que o homem civilizado poucas vezes ou jamais pisou.

Há várias outras fontes de prazer em uma longa viagem que são, talvez, de natureza mais razoável. O mapa do mundo deixa de ser um branco; ele se torna um quadro pleno das mais variadas e animadas figuras. Cada parte assume suas verdadeiras dimensões: grandes continentes não são vistos como se fossem ilhas, ou ilhas consideradas meros grãos de poeira, quando na verdade são maiores que muitos reinos da Europa. África ou América do Norte e do Sul são nomes sonoros e fáceis de se pronunciar, mas só quando se navegou por algumas semanas ao longo de pequenas porções de suas costas é que se fica plenamente convencido da dimensão de nosso imenso mundo que esses nomes implicam.

Ao ver seu estado atual, é impossível não olhar com ansiedade e grande expectativa para o progresso futuro de um hemisfério quase inteiro. A marcha do progresso, consequência da introdução da cristandade por todo o mar do Sul, provavelmente destaca-se isolada nos anais do mundo. É mais impressionante quando lembramos que, há apenas sessenta anos, Cook, cujo juízo excelente ninguém desafiará, não conseguia ver perspectivas de tal mudança. E no entanto essas mudanças foram efetivadas pelo espírito filantrópico da nação inglesa.

Na mesma posição do globo, a Austrália está se erguendo, ou na verdade pode-se dizer que se ergueu, para a posição de um grande centro de civilização que, em algum período não muito distante, regerá como imperadora o hemisfério Sul. É impossível para um inglês contemplar essas distantes colônias sem grande orgulho e satisfação. Erguer a bandeira britânica parece trazer como consequências seguras a riqueza, a prosperidade e a civilização.

Como conclusão, parece-me que nada pode ser mais proveitoso para um jovem naturalista do que uma jornada por terras distantes. Ela simultaneamente aguça e também parcialmente satisfaz aquele impulso e aquele desejo que, como comenta sir J. Hershel, o homem experimenta, muito embora todos os sentidos corpóreos estejam plenamente satisfeitos. A empolgação devida à novidade dos objetos e à possibilidade de sucesso o estimulam a trabalhar. Além disso, como uma certa quantidade de fatos isolados logo se torna desinteressante, o hábito da comparação leva à generalização; por outro lado, como o viajante fica apenas pouco tempo em cada lugar, sua descrição deve geralmente consistir de meros esboços ao invés de observações detalhadas. Daí surge, como descobri a minhas custas, uma constante tendência para preencher as amplas lacunas do conhecimento através de hipóteses imprecisas e superficiais.

Mas aproveitei demais a viagem para não recomendar que qualquer naturalista enfrente todos os riscos e comece com viagens por terra se possível, se não, com uma longa viagem. Ele pode ter certeza de que não encontrará dificuldades ou perigos (a não ser em casos raros) tão ruins quanto imaginou anteriormente. De um ponto de vista moral, o efeito deveria ser o de lhe ensinar uma paciência bem disposta, o altruísmo, o hábito de agir por si próprio e de fazer o melhor de tudo, ou a satisfação: em resumo, ele deveria partilhar das qualidades características da maior parte dos marujos. Viajar também deveria ensiná-lo a não confiar nos outros; mas ao mesmo tempo ele vai descobrir quantas pessoas de real boa natureza existem, com as quais ele jamais havia se comunicado e também não voltará a se comunicar, e que no entanto estão prontas a lhe a oferecer o mais desinteressado auxílio.

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