Down, Kent, Inglaterra. 1842 a 1859

Local 42

"A Origem das Espécies"

Ainda antes da viagem no Beagle, Darwin aprendeu que não bastava apenas ter ideias brilhantes. Antes de divulgá-las era preciso buscar teorias que as embasassem, e fazer experimentos para comprovar suas hipóteses. Ele era cauteloso e perfeccionista e, dessa forma, trabalhou com dedicação mais de 20 anos para concluir sua teoria. Avaliou suas amostras e coletou outras, trocou centenas de correspondências com diversos amigos e colegas de diferentes classes sociais em todo o mundo, buscando indícios teóricos e experimentos em laboratório, para concretizar sua argumentação sobre a teoria da evolução das espécies. Contudo, manteve-se cauteloso durante todos esses anos e apenas poucos amigos, como Lyell e Hooker, sabiam os detalhes de sua teoria.

Em 1842, com o temor da instabilidade política e econômica da época, Charles e Emma se mudaram para Down no condado de Kent, a 26 km de Londres. Na Down House a família cresceu, enquanto Darwin trabalhava com determinação. Ele era um pai muito presente e carinhoso. Por isso, sentia-se angustiado pelas possíveis consequências que poderiam decorrer da publicação de seu livro e acabou adoecendo. Sua segunda filha, Anne Elizabeth, ficou muito doente e faleceu aos 10 anos de idade (1851), o que o abalou profundamente.

Em paralelo às pesquisas de Charles, Alfred Russel Wallace analisava a distribuição geográfica dos animais e plantas na Malásia. Em 1855, Wallace publicou um artigo intitulado “Sobre a lei que regulou a introdução de novas espécies”. Charles Lyell, preocupado com o ineditismo da teoria de Darwin, alertou-o para publicar seu trabalho o quanto antes. Darwin chegou a redigir uma versão reduzida de seu livro, mas não o publicou pois acreditava que ainda necessitava de maiores evidências para comprovar suas ideias.

Em 1858, Darwin recebeu uma correspondência de Wallace com um manuscrito sobre sua teoria da seleção natural. Ele ficou arrasado pois Wallace havia chegado de forma independente as mesmas conclusões. Estava disposto a permitir que Wallace recebesse o crédito da teoria. Porém, para que Darwin não perdesse o ineditismo de sua teoria, Lyell e Hooker propuseram que o manuscrito de Wallace fosse publicado junto com artigos de Darwin, anteriores a este manuscrito e que não haviam sido publicados até aquele momento. Assim, em 1º de julho de 1858, a publicação conjunta de Darwin e Wallace foi lida na Sociedade Lineísta.

Após este episódio, Charles trabalhou com afinco e, apesar da ausência de alguns dados e algumas fontes de comprovação, o livro “Sobre a Origem das Espécies por Meio da Seleção Natural ou a Preservação de Raças Favorecidas na Luta pela Vida” foi publicado em 24 de novembro de 1859, pela editora de John Murray em Londres.

A primeira edição do livro teve 1250 exemplares e todos foram vendidos no mesmo dia do lançamento. Darwin utilizou uma linguagem popular que permitiu que pessoas menos letradas o lessem, possibilitando que essa obra cientifica ultrapassasse o âmbito acadêmico.

Escrito no período

Na introdução de seu livro “A Origem das Espécies”, Darwin cita o “mistério dos mistérios” em referencia ao astrônomo Herschel e fala da viagem onde tudo começou :

Durante minha viagem a bordo do H.M.S. Beagle, como naturalista que sou, fiquei bastante impressionado com certos fatos referentes à distribuição dos seres organizados que povoam a América do Sul e as relações que existem entre os seres que habitam ou habitaram aquele continente.

Esses fatos, como serão confirmados nos últimos capítulos deste volume, pareceram lançar alguma luz sobre a origem das espécies – esse mistério dos mistérios, como vem sendo chamado por um de nossos maiores filósofos. Quando do meu retorno a minha terra natal, em 1837, ocorreu-me que talvez pudesse fazer algo sobre esse assunto se fosse, com paciência, acumulando e refletindo sobre toda sorte de fatos que pudessem ter alguma influência sobe essa questão. Depois de um trabalho de cinco anos permiti-me teorizar sobre esse assunto e escrever algumas pequenas notas; em 1844 elas foram adicionadas, em forma de ensaio, às conclusões que então me pareciam prováveis: desde aquela data até o presente momento tenho perseguido o mesmo objetivo com tenacidade. Espero que eu possa ser desculpado por entrar nestes detalhes de natureza pessoal, pois foram citados apenas para provar que não fui apressado em chegar a nenhuma conclusão.

Ainda na introdução de seu livro "A Origem das Espécies", faz questão de explicitar a publicação conjunta com Alfred Russel Wallace:

No presente momento (1859) minha obra está quase concluída; mas, como ainda irá tomar mais alguns anos para completá-la, e minha saúde está longe de ser boa, tive urgência em publicar este resumo. Fui induzido a fazer isso, sobretudo porque o Sr. Wallace que, no momento, está estudando a história natural do Arquipélago Malaio, chegou quase às mesmas conclusões que eu sobre a origem das espécies. Em 1858, ele enviou-me sobre esse assunto com um pedido para que eu o entregasse a Sir Charles Lyell, que, por sua vez, o enviou a Linnean Society, tal ensaio foi publicado no terceiro volume do jornal daquela sociedade. Sir C, Lyell e o Dr. Hooker, que já conhecem os meus trabalhos – tendo este último lido meu esboço de 1844 -, me honraram ao sugerir a publicação de alguns fragmentos de meus manuscritos ao mesmo tempo que o excelente esboço do Sr. Wallace era publicado.

Você sabia?

  • Que no seu livro “A Origem das Espécies” Darwin apresenta um esboço histórico dos progressos de opinião sobre a origem das espécies? Ele começa citando Aristóteles, Lammarck, seu avó Dr. Erasmus Darwin, Goethe e muitos outros autores.
  • Que Darwin chamou de seleção natural o princípio de preservação ou de sobrevivência do mais apto? Ele chegou à conclusão que não é o mais inteligente ou o mais forte que sobrevive, e sim aquele que melhor se adapta às condições do meio ambiente onde vive.
  • Que durante sua vida, Darwin escreveu mais de 15.000 cartas? Essas correspondências são hoje uma fonte de informação incalculável para compreendermos não apenas seu desenvolvimento intelectual e sua rede social, mas a ciência e a sociedade Vitoriana.
  • Que para embasar sua teoria Darwin fez dezenas de experimentos? Estudou e classificou cracas, criou pombos, estudou a anatomia e o desenvolvimento de animais domésticos, hibridização e fertilização de plantas, deixou sementes de molho em água salgada para medir o quanto tempo ainda germinavam e até verificou se caramujos aquáticos podiam pegar carona nos pés de patos e, assim, migrar longas distâncias.
  • Que o livro Seleção Natural das Espécies é um dos livros mais influentes da humanidade? Ele é comparado somente a "De revolutionibus orbium coeletium" de Copérnico, ao "Princípia" de Newton e aos artigos que Einstein escreveu em 1905 e 1916.

Para saber mais...

Os caminhos de Darwin e de Wallace
Entrevista com o prof. Ildeu Moreira da UFRJ
Quando ele publicou? A teoria de Darwin e Wallace
Entrevista com Almirante Bittencourt
Teoria da Evolução das Espécies
Entrevista com Almirante Bittencourt

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